Pular para o Conteúdo Principal
Análise econômica e de mercado

Outras frentes do crédito privado ainda oferecem valor

Mesmo com o setor de empréstimo direto sob escrutínio, o crédito privado segue como um mercado amplamente diversificado, oferecendo uma variedade de oportunidades investíveis.
Private Credit’s Other Lanes Still Offer Value
Outras frentes do crédito privado ainda oferecem valor
Headshot of Lotfi Karoui
Headshot of Gabriel Cazaubieilh
 | {read_time} min de leitura

Preocupações com o crédito privado intensificaram-se nos últimos meses. Investidores estão lidando com questões relativas à deterioração da qualidade do crédito, valuations defasados, análises de risco menos rigorosas, risco de resgate em certos tipos de fundos e o impacto da disrupção impulsionada pela IA. Grande parte da ansiedade tem se concentrado no crédito direto corporativo – especialmente nas empresas de desenvolvimento de negócios (BDCs) e nos veículos semilíquidos .

Esse foco estreito, no entanto, pode perder de vista o cenário geral. O crédito privado é uma classe de ativos mais ampla e diversificada, oferecendo uma gama de exposições a risco diferenciadas. Além do empréstimo corporativo sênior garantido tradicional, o crédito privado abrange ativos com garantias reais (Asset-based finance, ABF) e finanças especializadas, imóveis e situações especiais , cada um com fatores distintos de risco e retorno. Juntas, essas distinções apontam para um conjunto mais matizado de implicações de investimento, que podem ser agrupadas em alguns temas principais.

  • Esse universo mais amplo de crédito privado ainda conquista seu lugar nas carteiras. ABF e o crédito ao consumidor e hipotecário de alta qualidade continuaram a oferecer diversificação significativa e valor mais atraente do que o empréstimo direto. O ABF é geralmente menos correlacionado com o ciclo de lucros corporativos e beneficia-se de proteção estrutural contra perdas. A exposição seletiva ao crédito ao consumidor e hipotecário, particularmente relacionada a famílias de renda mais alta, pode oferecer um perfil de risco-retorno mais atraente.
  • O empréstimo direto acabará encontrando o ciclo de crédito…Como todo segmento maduro de finanças alavancadas, o empréstimo direto deve, com o tempo, enfrentar um ciclo de inadimplência completo – que testaria sua resiliência a choques macroeconômicos e específicos do setor. As primeiras safras de empréstimos, originadas logo após a crise financeira global, beneficiaram-se de uma documentação mais forte e controle dos credores. Nos anos seguintes, a captação recorde de fundos corroeu constantemente os padrões de análise de risco. Em meio à maior sobreposição com os mercados públicos, fundos de empréstimo direto ofereceram cada vez mais termos comparáveis aos das finanças alavancadas públicas – sem fornecer qualquer compensação significativa pela iliquidez. A opacidade persistente e a insuficiente divulgação sobre os fundamentos dos emissores provavelmente manterão as preocupações com a qualidade do crédito e as marcações de preço das carteiras firmemente em foco.
  • … Embora o risco de disrupção por IA e a concentração das carteiras provavelmente continuem a limitar o desempenho. A pesada exposição ao setor de software em carteiras de empréstimo direto deve restringir o desempenho relativo em comparação tanto com os mercados públicos quanto com outros segmentos de crédito privado. Ao mesmo tempo, a maior sobreposição de carteiras entre gestores comprimiu a dispersão de desempenho, limitando o escopo para a superação de desempenho na seleção de gestores (alfa), uma dinâmica cada vez mais evidente no desempenho relativo de safras recentes.
  • Atenção à lacuna de liquidez. Nos mercados privados, veículos semilíquidos expandiram-se rapidamente nos últimos anos. Embora o risco de um evento do tipo "corrida aos bancos" escalar para um choque sistêmico permaneça baixo, dadas as salvaguardas estruturais incorporadas nesses veículos, episódios recentes provavelmente levarão investidores a reavaliar tanto o montante de iliquidez que estão aceitando quanto a compensação que recebem por isso. Também ressaltam a importância de entender como a liquidez é acessada em diferentes tipos de estruturas semilíquidas.

Figura 1: A parcela de empréstimos PIK em carteiras de BDCs aumentou em 2025 para perto das máximas pós-COVID

A Figura 1 mostra a porcentagem de empréstimos payment-in-kind (PIK) mantidos em carteiras de empresas de desenvolvimento de negócios (BDC) ao longo do tempo. A parcela de empréstimos PIK aumenta de forma constante a partir de 2022 e cresce ainda mais até 2025, aproximando-se dos níveis de pico observados durante o período pós-COVID. O gráfico indica um aumento renovado em estruturas de empréstimos mais arriscadas dentro das carteiras de BDCs.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 3º trimestre de 2025

Figura 2: BDCs são negociadas próximas ao seu maior desconto em relação ao valor patrimonial desde o início da recuperação pós-COVID

A Figura 2 compara os preços de mercado das BDCs com seus valores patrimoniais reportados ao longo do tempo. Isso mostra que as BDCs estão sendo negociadas atualmente com um desconto significativo e crescente, em relação ao valor patrimonial. A dimensão desse desconto está entre as maiores observadas desde o início da recuperação pós-COVID. O gráfico sugere que investidores estão exigindo uma remuneração maior pelos riscos percebidos, incluindo preocupações sobre o valuation de ativos e a qualidade do crédito subjacente.
Fonte: Bloomberg e PIMCO, em 24 de fevereiro de 2026

Figura 3: A parcela de transações tradicionais de tomador único/credor único em carteiras de BDCs diminuiu

A Figura 3 ilustra a proporção de empréstimos de BDCs estruturados como transações tradicionais de tomador único e credor único na última década. Os dados mostram uma clara tendência de queda nessas transações nos últimos anos. Essa queda indica uma mudança em relação às estruturas de empréstimo historicamente comuns para o mercado intermediário.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 3º trimestre de 2025

Figura 4: A composição das carteiras de BDCs tem gravitado em direção a estruturas de capital maiores

A Figura 4 ilustra mudanças no tamanho e na estrutura dos empréstimos mantidos em carteiras de BDCs na última década. A composição mudou para estruturas de capital maiores, refletindo uma participação crescente em transações de maior porte que frequentemente envolvem múltiplos credores.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 3º trimestre de 2025

Em paralelo, outras duas mudanças também ocorreram. Primeiro, a sobreposição de carteiras entre gestores tem aumentado de forma constante. A Figura 5 ilustra essa tendência mapeando a interseção de participações em carteiras para o par mediano de BDCs, destacando a similaridade das exposições.

Figura 5: A sobreposição de carteiras cresceu consideravelmente nos últimos anos

A Figura 5 mede o grau de sobreposição entre as carteiras de BDCs calculando a exposição média compartilhada entre pares de BDCs. Os resultados mostram um aumento constante na sobreposição de carteiras ao longo do tempo. Isso indica que diferentes gestores estão cada vez mais investidos nos mesmos tomadores subjacentes, reduzindo a diversificação e aumentando a correlação entre as carteiras.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 3º trimestre de 2025 Para cada par de BDCs, somamos os pesos mínimos de emissores sobrepostos em ambas as carteiras. Em seguida, calculamos a média de todos os pares.

Segundo, o forte envolvimento de sponsors de private equity em empresas de software, combinado com sua dependência do empréstimo direto como canal de financiamento preferencial, impulsionou uma acentuada concentração setorial, com a parcela de software mais do que dobrando em uma década (ver Figura 6).

Figura 6: A parcela de empresas de software em carteiras de BDCs é elevada

A Figura 6 mostra a composição setorial das carteiras de BDCs, focando na exposição a empresas de software. A parcela de investimentos relacionados a software aumentou substancialmente na última década e permanece elevada. O gráfico demonstra a crescente concentração setorial, sugerindo maior exposição a riscos específicos da indústria de software.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 3º trimestre de 2025

Para investidores, o impacto combinado dessas forças é uma diversificação mais fraca e uma maior correlação cruzada entre carteiras de diferentes gestores.

Figura 7: Veículos semilíquidos registraram crescimento significativo nos últimos anos

A Figura 7 acompanha o crescimento dos ativos sob gestão de veículos de mercado privado semilíquidos ao longo do tempo, excluindo BDCs não negociadas e REITs privados. Os ativos aumentam significativamente de 2019 a 2023, indicando forte demanda dos investidores por acesso ao mercado privado com liquidez periódica. O gráfico destaca a rápida expansão das estruturas de investimento semilíquidas.
Fonte: Preqin e PIMCO, dados de dezembro de 2025. BDCs não negociadas e REITs privados não estão incluídos.

Figura 8: A maior parte dos ativos do mercado privado permanece investida em fundos de safra

A Figura 8 compara o total de ativos investidos em veículos semilíquidos com aqueles investidos em fundos de safra tradicionais do mercado privado. Apesar do crescimento nas estruturas semilíquidas, o gráfico mostra que fundos de safra continuam a deter a maioria dos ativos do mercado privado. Isso indica que as estruturas de fundos fechados de longo prazo continuam sendo a forma dominante de investimento no mercado privado.
Fonte: PitchBook LCD e PIMCO, dados do 2º trimestre de 2025 AUM total em veículos semilíquidos, incluindo BDCs não negociadas e fundos de investimento imobiliário (REITs) privados, comparados aos fundos de safra. Incluímos apenas fundos com pelo menos US$ 100 milhões de AUM.

Embora o risco de uma verdadeira dinâmica de "corrida aos bancos" nesses veículos seja geralmente baixo, dados os limites contratuais explícitos nos resgates e a capacidade dos gestores de suspender fluxos, semilíquido não significa totalmente líquido. Como acontece com os fundos de safra tradicionais, investidores ainda devem avaliar suas próprias necessidades de liquidez e tolerância ao acesso restrito ao capital, particularmente durante períodos de volatilidade elevada. O recente escrutínio sobre resgates em fundos de empréstimo direto semilíquidos trouxe essa distinção à tona, ressaltando que a liquidez é condicional, e não garantida.

O que muitas vezes é menos apreciado, no entanto, são as diferenças significativas dentro do próprio universo semilíquido. Embora esses veículos ofereçam aos investidores a opção de alocar capital de forma contínua, operam sob distintos regimes regulatórios e diferem quando se trata de dar aos investidores acesso à liquidez.

Para BDCs não negociadas, REITs privados e fundos evergreen, o acesso à liquidez fica, em última análise, a critério do gestor. Na prática, os investidores estão vendidos em uma opção de venda  ao gestor. O valor desta opção de venda aumenta precisamente em contextos globais onde a demanda agregada por liquidez cresce ou as condições de mercado se deterioram. Nesses momentos, a diferença entre os termos de resgate estipulados e a liquidez efetivamente obtida pode aumentar consideravelmente.

Em contraste, os fundos de intervalo eliminam essa opcionalidade. As recompras ocorrem em intervalos pré-determinados e são limitadas a uma porcentagem fixa do valor patrimonial líquido (NAV) declarado, proporcionando aos investidores certeza de execução nos termos oferecidos.

Para deixar claro, os fundos de intervalo não são mais líquidos. Em vez disso, são menos ambíguos e mais transparentes: a liquidez é explicitamente limitada, baseada em regras e aplicada sistematicamente, em vez de discricionariamente.

1BDCs (Business Development Companies) são fundos que investem em pequenas e médias empresas privadas dos EUA. Veículos semilíquidos são fundos de investimento que oferecem oportunidades de resgate periódico em vez de liquidez diária.

2ABF (Asset-based finance) e finanças especializadas são termos frequentemente usados de forma intercambiável para descrever empréstimos privados garantidos por ativos e colaterais específicos, como aeronaves, financiamento de automóveis e hipotecas. Situações especiais referem-se a eventos únicos, muitas vezes isolados, que afetam os valuations de ativos e apresentam oportunidades de investimento.

3 Fundos evergreen são fundos de investimento sem data de término fixa que captam capital continuamente e reciclam os recursos das saídas em novos investimentos, permitindo que os investidores entrem e saiam periodicamente, em vez de em um único vencimento do fundo. Fundos de intervalo são fundos de investimento fechados que oferecem liquidez aos investidores apenas em intervalos programados (como trimestrais ou semestrais) por meio de ofertas limitadas de recompra de cotas, em vez de resgates diários.

4 Uma opção de venda (put option) é um contrato financeiro que dá ao detentor o direito, mas não a obrigação, de vender um ativo subjacente a um preço especificado em ou antes de uma data de vencimento especificada.

Select Your Location


Americas

Asia Pacific

  • Japan

Europe, Middle East & Africa

  • Europe
Back to top

Saindo do site PIMCO.com

Você está saindo do site da PIMCO.