Principais conclusões
- Os resultados econômicos e de mercado divergem cada vez mais entre regiões e setores, ressaltando a importância da resiliência na construção de carteiras.
- Os rendimentos iniciais estão significativamente mais altos do que nas últimas décadas, proporcionando proteção para os investidores, mesmo que a inflação permaneça elevada e as trajetórias de políticas divirjam.
- A Estratégia Income é diversificada em todas as oportunidades globais de renda fixa, com viés de maior qualidade e liquidez, mantendo flexibilidade para navegar pela volatilidade e aproveitar deslocamentos.
Os mercados de renda fixa oferecem um potencial de renda atraente, mesmo com investidores navegando por um cenário macroeconômico e geopolítico incerto. Dan Ivascyn, que junto com Alfred Murata e Josh Anderson é responsável pela Estratégia Income da PIMCO, conversa com o estrategista de renda fixa, Esteban Burbano. Eles analisam o cenário atual e como a equipe está posicionando a Estratégia Income para a resiliência, flexibilidade e oportunidades.
P: A Perspectiva Cíclica mais recente da PIMCO, “Incerteza em camadas: conflito, estresse de crédito e IA,” destaca a intensificação da incerteza e a crescente divergência entre regiões e setores. Como esses fatores estão influenciando nossa perspectiva geral para os próximos 6 a 12 meses?
R: Começamos o ano com incerteza significativa do ponto de vista macroeconômico, com mudanças de políticas e a disrupção contínua causada pela IA. Esses fatores estão impulsionando uma economia “em forma de K”: famílias, setores e países mais fortes, com motores claros de crescimento, estão resistindo bem, enquanto outros mais expostos à inflação, a juros mais elevados ou à desaceleração da demanda, estão ficando para trás. Essa divergência continua sendo um tema definidor em nossa perspectiva.
O que mudou foi a escala da incerteza gerada pelo conflito no Oriente Médio e pelo potencial de um choque prolongado na oferta de energia. Em ambientes como este, com incerteza elevada e riscos de cauda mais acentuados, estamos dando ênfase a resiliência e liquidez.
P: Como estamos avaliando o crescimento, a inflação e os principais riscos para o próximo ano?
R: Nosso cenário-base continua sendo de crescimento global positivo. Nos EUA, projetamos crescimento em 2026 na faixa alta de 1% a 2%, supondo que as tensões geopolíticas não se intensifiquem de forma significativa.
A inflação é a maior incerteza. O choque de energia provavelmente manterá a inflação elevada por mais tempo, levando vários trimestres para retornar plenamente à sua trajetória anterior, mesmo que haja um alívio significativo das preocupações com a oferta de petróleo. Isso significa que poderemos ver menos acomodação por parte dos bancos centrais do que muitos esperavam antes do conflito (tampouco a guinada "hawkish" que alguns previram mais recentemente), além de uma perspectiva para políticas mais diferenciada entre os países. A Estratégia Income também tem flexibilidade para incorporar investimentos em títulos de renda fixa vinculados à inflação, quando apropriado, para mitigar riscos inflacionários.
Ainda monitoramos um possível cenário de estagflação, no qual a inflação permanece elevada por tempo suficiente para começar a pesar sobre o crescimento. Se os bancos centrais forem obrigados a reagir de forma mais agressiva, isso poderá ser negativo para crédito e ações. Embora nosso cenário-base seja de que a economia e os ativos de risco se mantenham resilientes, a gama de resultados possíveis é mais ampla do que o normal, e as carteiras devem refletir essa incerteza.
P: Com a incerteza geopolítica e política tão elevada, como vocês estão gerenciando o risco geral da carteira?
R: Atualmente, nos apoiamos em três ideias centrais. Primeiro, manter a qualidade. Quando o mundo está tão incerto e os valuations dos ativos de risco ainda parecem, em linhas gerais, esticados, não acreditamos que seja o momento de avançar agressivamente para as partes mais sensíveis à economia dos mercados de crédito.
Segundo, manter a diversificação nas oportunidades globais de renda fixa. A Estratégia Income está tão diversificada quanto tem estado há muitos anos, e isso importa quando diferentes países estão em diferentes estágios dos ciclos de crescimento, inflação e política monetária.
Terceiro, manter o foco em liquidez, porque liquidez significa flexibilidade futura. Tratamos a liquidez como um ativo; ela nos permite atuar quando outros precisam de liquidez e buscar aproveitar deslocamentos quando ocorrem.
De um modo mais amplo, é muito desafiador prever resultados macroeconômicos com precisão. Um princípio fundamental do nosso raciocínio – e a boa notícia de hoje – é que não é necessariamente preciso fazer previsões ousadas sobre o que os bancos centrais farão, o que os líderes globais farão ou como as situações geopolíticas poderão se desenrolar. Em vez disso, é possível simplesmente buscar aproveitar valuations absolutos e relativos atraentes em segmentos de renda fixa de maior qualidade, e é nisso que a Estratégia Income está focada.
P: Como avaliam o posicionamento em duration e na curva de juros neste momento?
R: O objetivo principal é tirar proveito dos rendimentos atraentes atuais, mantendo a flexibilidade. Se os riscos geopolíticos se intensificarem e desacelerarem o crescimento, as taxas de juros poderão cair, o que provavelmente beneficiaria os títulos de renda fixa, mas as oportunidades de reinvestimento poderão ser menos atraentes mais adiante. Isso torna a captura dos valuations elevados atuais particularmente importante.
Com isso em mente, aumentamos ligeiramente o duration, com foco em mercados que ficaram para trás e poderiam se beneficiar da estabilização, incluindo Austrália, Reino Unido e mercados emergentes de maior qualidade. No geral, o duration permanece alinhado ao benchmark da estratégia.
Também permanecemos ativos no posicionamento da curva, já que a volatilidade recente, especialmente na ponta longa, criou oportunidades para ajustar a exposição. Mudamos de uma posição concentrada na ponta curta para uma postura mais equilibrada e neutra e, embora ainda tenhamos preferência, de modo geral, pela ponta curta, o posicionamento atual está mais diversificado e flexível.
P: A estratégia mantém um overweight significativo em títulos hipotecários emitidos por agências dos EUA (MBS). Por que isso ainda faz sentido hoje?
R: Títulos hipotecários de agências tiveram um desempenho muito bom nos últimos dois anos, porque começaram extremamente baratos e depois se beneficiaram do estreitamento dos spreads. Recentemente, tiveram desempenho um pouco inferior, com o aumento da volatilidade das taxas de juros, mas continuamos a vê-los como ligeiramente baratos e mais próximos do valor justo atualmente.
Dito isso, ainda gostamos deles porque o “justo” parece atraente em um mundo no qual segmentos do crédito de menor qualidade continuam caros. Também oferecem um perfil de liquidez favorável, que nos permite negociar ativamente para agregar valor e fazer rotação para outras áreas quando surgem oportunidades melhores. Com o tempo, à medida que surgirem oportunidades atraentes em crédito com melhores perfis de risco e spread incremental, poderemos fazer rotação, mas, por ora, os títulos hipotecários de agências continuam sendo uma posição importante.
P: O que tem sido observado em títulos lastreados em ativos (ABS) e crédito estruturado?
R: Títulos ABS de consumo de alta qualidade, vinculados a famílias de renda média e alta, ainda parecem atraentes. Os padrões de concessão de crédito permaneceram, de modo geral, sólidos, as famílias se beneficiaram de anos de crescimento da renda, e muitos proprietários de imóveis detêm volumes recordes de patrimônio em suas propriedades. Dito isso, estamos sendo seletivos, especialmente porque observamos que alguns gestores passaram a atuar em segmentos mais arriscados, de maior rendimento e menor qualidade do mercado.
Também estamos analisando atentamente as obrigações de empréstimo colateralizadas (CLOs). Historicamente, evitamos uma exposição significativa ao nível mezanino devido à volatilidade e à alavancagem embutida, mas o risco de CLO sênior – especialmente tranches de maior qualidade – começou a parecer mais interessante na margem.
P: Os spreads de crédito corporativo têm estado comprimidos. Onde estamos aumentando a exposição e onde estamos cautelosos?
R: Estamos cautelosos em relação ao crédito de menor qualidade. Os spreads estão mais comprimidos do que gostaríamos, dada a incerteza macroeconômica e o potencial de disrupção impulsionada pela IA, que pode criar vencedores e perdedores em diferentes setores. O crédito privado tem algumas exposições concentradas em áreas mais sensíveis, e estamos vendo o estresse aumentar.
Os fundamentos do "high yield" tradicional parecem mais fortes do que os de algumas áreas do crédito privado, mas são vulneráveis caso o crescimento enfraqueça, por isso a Estratégia Income se mantém cautelosa. Os fundamentos do investment grade (IG) parecem, em geral, sólidos, embora os valuations não estejam especialmente baratos, em nossa opinião.
O que é encorajador é o aumento de situações especiais em que empresas que antes esperavam compradores privados estão retornando aos mercados públicos. Em muitos casos, estão oferecendo termos mais favoráveis aos investidores para fechar acordos. Isso cria oportunidades potenciais para investidores pacientes com liquidez entrarem em condições atraentes.
P: Como avaliam o câmbio?
R: No prazo mais longo, esperamos uma ligeira fraqueza da moeda americana, por isso mantemos um pequeno underweight em dólar na Estratégia Income. Mas, no curto prazo, a convicção é menor porque, em períodos de conflito agudo ou movimentos de aversão ao risco, o capital frequentemente migra temporariamente para o dólar.
Também reduzimos recentemente alguma exposição cambial, principalmente em mercados emergentes. Nossa abordagem continua orientada por valor relativo, e não por uma posição de risco expressiva.
P: Qual é a principal conclusão para os investidores da Estratégia Income agora?
A: Na nossa opinião, o fator mais importante a considerar atualmente são os rendimentos iniciais. Os rendimentos atuais são significativamente mais altos do que vimos em grande parte das últimas duas décadas, criando uma proteção para investidores focados em renda. Mesmo com a inflação elevada no curto prazo, os títulos de renda fixa de alta qualidade, em geral, oferecem rendimentos bem acima da inflação, o que historicamente tem sido um indicador favorável dos retornos futuros.
Para investidores com horizonte de três a cinco anos, esses valuations iniciais são importantes. Em uma carteira flexível como a Estratégia Income, o rendimento pode servir como base de longo prazo, com potencial de agregar valor ao longo do tempo por meio de mudanças ativas entre setores, na curva de juros e nos mercados globais, conforme surgem oportunidades. Acreditamos que o ambiente atual é um momento especialmente favorável para investidores considerarem reorientar as carteiras para títulos de renda fixa de alta qualidade para gerar renda potencial, diversificar o risco e se proteger contra cenários macroeconômicos adversos.
P: Alguma consideração final?
R: Agradecemos pela confiança que vocês depositam na equipe e no processo de investimento da PIMCO. Continuamos profundamente comprometidos em navegar por um mundo que é claramente desafiador, mas que também oferece oportunidades significativas para a renda fixa ativa e disciplinada. Como sempre, estamos focados em buscar entregar renda e retornos robustos em relação às estratégias passivas ao longo do tempo.